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Miolo de Pote em Cantigas e Versos


 

Cerrei meus olhos

ao facho de luz pequi

que brota do teu olhar.

 

Estanquei o manancial

do meu desejo

para seguir colhendo

amoras

pitombas

jatobás

cagaitas

...

em trilhas distantes

das tuas pegadas

(que trazem a vocação

de extinguir a fruta coração)



Escrito por lilia diniz às 13h36
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Em algum lugar do meu Maranhão

existe um povoado chamado Arame.

 

Arame não é nada poético para versejar

posto que rima com grilagem, latifúndio e morte

 

Mas a poesia também sangra! 

 

 

Se Arame é povoado

de certo fica do outro lado da cerca

deve haver ruas estreitas

casas de barro e palha

arrozais floridos

o canto do coco no machado

em algum babaçual

enfeitado de mulheres

bonitas, valentes

desdentadas

prenhes de sonhos

e esperança

remendada

com arame farpado

 

(foto: Alexandre Almeida - http://www.flickr.com/photos/alexandre_cine)



Escrito por lilia diniz às 17h10
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Lá no Tanque*

os meninos devem ser livres

devem correr, descer e subir ladeiras

sem distiorar os joelhos

 

Deve haver bicas enormes

nas casinhas de barro

com seus telhados de cavacos

que enchem as cisternas descobertas

na invernia custosa.

 

Proibidas às aventuras quando secas

elas esperam a chuva

na solidão dos girinos

sem aguaceiro

 

Os meninos

ao menor descuido

devem descer e subir

as paredes proibidas

ainda que esfolem

ombros e cotovelos

 

Deve existir em cada quintal

um reino encantado

onde as meninas descalças

erguem castelos de palha

e não brincam de serem felizes

 

Conta-se que o Tanque

é reservatório de alegria

de um maranhão empobrecido

cheio de terreiros floridos

e meninage encantadeira

de sofrer.

(*Povoado localizado no município de Buritirana-MA)



Escrito por lilia diniz às 21h36
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QUERUBINAS

 

Essa gente do cerrado

que tem cheiro

jatobá, pequi, ingá

...

traz a vocação

de arar sonhos

e colher liberdade.

 

Ao amanhecer

elas trazem o por do sol

nos olhos, na pele.

 

Adentram as trilhas

dos dias pesados

Tecem

costuram

pintam

fuxicam

...

Disfarçadas de flores

declaram guerra

ao medo.



Escrito por lilia diniz às 10h52
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Apartada

 

 

Que nem faz com a juquira

quando por terra é arriada

Que nem faz com a maniva

depois  de um ano prantada

 

Que nem faz com a urtiga

que é pra num queimar seu ninga

Que nem se esgota a lama

dos poço e das cacimba

 

Que nem a primera chuva

bate no chão esturricado

Que nem bezerro mamando

depois da noite amarrado

 

Queria fazer com a saudade

que ta ni mim arranchada

e num disapeia nem com a gota

me dexano amufinada



Escrito por lilia diniz às 15h26
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Caboca Goyá

 

Perdida nas sombras tortas

do cerrado

catando gravetos,

folhas secas,

flores murchas,

um resto qualquer

de cigarra morta

que negue essa aldeia

a pul(s)ar ancestralmente

na batida do meu peito

 

Goyá! Goyá! Goyá!

Goyá! Goyá! Goyá!

Goyá! Goyá! Goyá!

 

Buscando uma erva

que cure de vez

a dor de uma ausência

das fogueiras que jamais

me esquentaram os pés

 

Goyááááááááááááá!

 

Sugando o encarnado

das caliandras

para tingir meu sangue

de outro vermelho

mais luz

menos dor

mais planta

menos eu

 

Goyá!

 

Desejando encontrar

um fruto

acre

amargo

doce

azedo

que extinga por fim

o gosto incomparável

do suco de estrelas

que me eleve a alma



Escrito por lilia diniz às 22h55
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Algorando


Quero um caixão

o mais belo que jamais vi

nascido por entre as águas

de frutos belos, palmas abertas

que tenha abrigado a canção do juriti

 

Uma mortalha tecida

pelas mãos das fiandeiras

com os fios enviesados

por excelências dolentes

enfeitada docemente

com as toadas dos vaqueiros

 

Meu túmulo, casa de barro

quero buninas e perpétuas

semeadas no terreiro

 

Uma cruz quero por certo

do talo de babaçu

bem furnida

com imbira grossa

que é pra servir de descanso

pra rolinha pro nhambu

 



Escrito por lilia diniz às 19h57
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Fazimento de pôco

  

Os versos

que se achegam a mim

têm sabedoria de jabuti

e não me poupam de nada

nem da aspereza

das metáforas lerdas

que passeiam

em palavras rasteiras

senhoras de si

 

Ignorando

minha incapacidade

dão o mote

e se vão



Escrito por lilia diniz às 18h45
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Quando teus beicim

apitombado

apareceram

nas linhas tortas do meu olhar

desandei léguas

cerrado dentro de mim


Era ver cobra

rastejando pelo gosto

dessa raspinha acre-doce

que juro ter o teu beijar.


Eu colibri baleado

pelo desejo de provar

a carnadura

da tua bocaliandra

e o cheiro jabuticaba

dos teus cabelos sarará


Pele de jatobá marronzim

cantiguinha de beija-flor

sucupira floridinha

ninho de fogo pagô


Mutambinha cheirosa

araçá bem madurim

araticum, cagaita

ingá, meu ingá meu docim



Escrito por lilia diniz às 19h42
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http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.arteeeventos.com.br/paginas_leilao/pictures/

Meninice

       (Clauky, poetaçucena) 

 

 

E brincando com o tempo
jogo palavras amarelinhas
versos empetacados
caem no poço de rimas
e sigo ora em ciranda

ora em bombarquim
me encontrando no travesso
esconde-esconde
dos teus olhos meninos



Escrito por lilia diniz às 22h49
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TONNEVES - COLHEDOR DE ARROZ

 

 

Leitura

(poema para minha mãe Alice, que se alfbetizou aos 57 anos de idade)

 

 

As letras do meu roçado

agora teimam nascer

com gosto

textura

cor

 

Florescem as vogais

semeadas entre consoantes

plantadas na peleja diária

de um alfabeto que floreia bonito

 

Se debulha em colheitas

de manhãs desabrochadas

ao cantar do galo que me desperta

alimentando meu canto de liberdade

 

Abóbora, arroz, araçá, abacate, açaí...

Banana, batata, babaçu, berinjela, bacuri...

Caju, cacau, coco, cabaça, cajuí...


Nesse novo ABC

aprendo e reaprendo

que o trator do algoz

não suporta a ternura

arrebentando

em palavras caminhantes

ocupando o seio da terra

resistindo com vocábulo do amor

e produzindo lavouras de esperança

na cartilha da vida



Escrito por lilia diniz às 21h58
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(TONNEVES - LATA DÁGUA - Acrilico em tela)

 

 

Peleja 


O dia mainceno

terrero barrido

mandioca raspada

o forno acendido

 

Quebrajejum pronto

café já cheirano

bascui apanhado

galinha ciscano

 

Os copo ariado

os pote cheim

arroz cangulado

xerém pros pintim

 

Cabaça inxida

feijão debulhado

caêra esfriano

os coco torrado

 

Passarinha o menino

armando a arapuca

de castanha a menina

enche sua cumbuca

 

Ligume im fartura

jumenta apojada

o mio já no ponto

foi boa a invernada

 

Acende as candêa

o dia vem truvano

a cortina da noite

já vem se fechano

Me faz um xamego

me tira o infado

da peleja do dia

do coipo cansado

 

Imbruia os menino

mode a cruviana

vem cá meu denguim

 meu melado de cana

 



Escrito por lilia diniz às 21h28
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Escrito por lilia diniz às 01h20
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Por razão de encantamento

de hoje em diante

meu sorriso será

doidamente amarelo

como as flores de agosto

que hipnotizam

irradiando  versos iluminados

ofuscando os que ignoram

a poesia incandescente

e arrebatam almas descuidadas

 

(imagem: http://www.joaobarcelos.com.br/casa_branca.jpg)



Escrito por lilia diniz às 11h23
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Quando estive em Brasilia(setembro de 1995) fui arrebatada pelo amarelo dos ipês

que tomavam conta da cidade... Gestei esse encantamento e não deu noutra...

 

 

 

Escapadinha

 

Que as

boninas

me perdoem!

É que hoje

fui arrebatada

pelo amarelo,

juro que

não foi um amarelo

qualquer.

A cidade estava

simplesmente

a-m-a-r-e-l-a-!

Cmo se não bastasse

tanto amarelo em verso

flor e poesia

parecem ter

em cochicho

combinado tudo

com os guapuruvús

paus-ferro e acácias,

pois lá estavam

amarelinhos,

amarelinhos.

Perdoem-me amadas

boninas,

é que me deixei seduzir

pelo amarelo dos ipês

embora continuem

minhas preferidas!

Mas aquele amarelo...

 

(Miolo de Pote da Cacimba de Beber)

 



Escrito por lilia diniz às 11h09
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